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Bordado das Caldas
É hoje, de generalizado consenso, poder afirmar-se que os Bordados das Caldas são dos mais belos, interessantes e sóbrios bordados regionais portugueses. È um género de bordado, porém, que até muito recentemente, não era conhecido fora da sua terra de origem.


A sua denominação, das Caldas ou da Rainha D. Leonor, segundo a tradição, prende-se ao facto da esposa de D. João II e das suas aias, nos tempos de permanência nesta localidade, quando a Rainha administrativa pessoalmente o seu Hospital, gastarem os seus ócios a debuxar e a entretecer bordados, ao gosto dos que chegavam à Índia.
Diz-se mesmo que «esses bordados tiveram sempre cultores na terra da Rainha D. Leonor e onde a Rainha pessoalmente dirigia serões de agulha a que acorriam as senhoras todas da sua vila que principiava».

Estes bordados deviam vender-se nas arcadas do Hospital Real, em dias festivos e de feira.
«D’um sabor leve e agradável as toalhas bordadas com linha das Caldas que parecem pratos de arroz doce enfeitados a canela, essa linha das Caldas, que há trinta anos ainda se vendia às meadas à entrada do Hospital, e que todas as donas de casa da colónia balnear levavam para suas terras, porque nenhuma resistia na cor, como aquela, às lavagens e barrelas».

Embora não se conheçam, como se disse, exemplares fora da região caldense, os motivos mais usuais, «aranhiços» e espinhais, parecem ter, no entanto, certas analogias com alguns bordados considerados populares no sul da Espanha, mas com diferenças acentuadas quanto aos pontos e tons, que são azul e melado escuro.

Não será razoavelmente verosímil castelhana? Não residirá a originalidade do bordado caldense nos frequentes contactos com uma colónia de aquistas das zonas raianas da Extremadura espanhola e da Andaluzia, que desde longa data frequentava as termas locais?

Aproveitemos a oportunidade para referenciar a importância que poderá ter, para o estudo das raízes dos Bordados das Caldas, a pintura de Josefa d’Ayala, Sevilhana em Óbidos.

Seria por certo, bastante produtivo procurar na obra desta popular pintora seiscentista, nomeadamente nas composições das suas naturezas mortas, a revelação de muitos aspectos pouco conhecidos dos motivos decorativos regionais ao tempo.

Outra hipótese, porém, é-nos trazida por João Maia Pereira «Os bordados das Caldas da Rainha foram importados, de Veneza, no século XVII, para as igrejas da cidade». Viriam, então de Veneza, o estreposto mediterrâneo que, com Lisboa, recebia um manancial inesgotável de artefactos bordados, que as mulheres ocidentais se apressavam a copiar?

Fiquemos, então, com estas três hipóteses influenciais, indiana, espanhola ou veneziana, que fazem salientar, ainda mais, a importância das termas da rainha D. Leonor, como ponto de convergência de culturas, determinante no moldar do carácter hospitaleiro das gentes locais.

O renascimento dos bordados das Caldas:

Os Bordados das Caldas eram primitivamente executados com fio de linho, tinto num tom castanho dourado ou melado, sobre um tecido ralo branco, ou invés, de linha branca trabalhada em tecido acastanhado, com grande profusão de pontos.

Trata-se de um bordado filigranado, sóbrio de colorido, e de fácil execução, sendo os materiais utilizados necessariamente modestos, porque modestas eram as vidas das suas executantes.
O renascimento do Bordado das Caldas da Rainha deve-se, muito principalmente, a D. Maria Margarida Franco dos Santos, que foi professora de lavores na Escola industrial e Comercial Rafael Bordalo Pinheiro, nas décadas de vinte a quarenta deste século, o que viria a motivar um grupo de senhoras, de que se destaca a Dra. Irene Truninger de Albuquerque, de origem Suiça, surpreendida nas Caldas da rainha pela Segunda Guerra Mundial e aqui casou, sendo depois professora na Faculdade de letras da Universidade de Letras de Lisboa.

A confecção :

Como referimos, os Bordados das Caldas fabricavam-se em linho de tecitura grossa, ligeiramente cru, de confecção caseira. Os primitivos eram executados com fios de linho, tintos por cozedura em chás de diferentes plantas e flores de carqueja, o que lhes dava a incerteza da cor e a beleza do matizado.

Actualmente, executam-se em tecido de linho, de alinhados finos, em linhas comerciais de algodão «perlé», de três tons.

Os seus motivos são: arquinhos, «aranhiços», espirais, volutas, ângulos, repetições, corações – por vezes trespassados de setas – «carinhas» e «a birra de burro».

Todos os elementos de cada motivo são simétricos, sendo a simetria o factor principal da composição do Bordado das Caldas. Na composição em repetição apenas os ângulos alternam, nos quatro cantos do quadrilátero, o mesmo motivo decorativo.

No entanto, os desenhos do bordado «ponto de cadeia» fogem à referida simetria e têm uma composição de flores variadas.

Nos ângulos, a composição ostenta geralmente um pequeno coração; as espirais são mais largas e duplas, ficando os cantos enriquecidos, devido à quantidade de pontos utilizados.
Também em cada ângulo, a bissectriz é o eixo do motivo ângulo, observando-se nos desenhos de maior formato dois «aranhiços» grandes, sendo um para cada lado.

Na organização da composição é necessário que todas as curvas, arquinhos, espirais e «aranhiços» sejam tangentes às linhas rectas com que jogam.

O formato é geralmente rectangular, conhecendo-se, vários em forma circular ou em quadrado perfeito. Os pontos são de recorte muito espaçado: o vulgo ponto de caseado, os pontos de grilhão, de pé de galo, de formiga, de coroa, de espinha e pequenos ilhós; alinhavados, interrompidos e brides.

De acordo com a professora Idalina Lameiras, como remate, em volta, estes bordados podem ser terminados com renda de bilros, feita em linha de algodão grosso, ou com franja executada num tear próprio, ou ainda, com bainha presa com os tais pontos de recorte largo e de pé de galo.

Preservação e difusão:

Os Bordados das Caldas terão sido, certamente, mais um legado que os caldenses receberam da Princesa Perfeitíssima; uma manifestação artística que, tal como o seu Hospital Termal, perdurou até aos nossos dias.

A Escola Secundária de Rafael Bordalo Pinheiro, prestigiado estabelecimento educacional, desde sempre muito ligado ao ensino artístico, possui um notável espólio de belíssimos exemplares – cópia de antigos modelos – produzidos ao longo dos anos pelas suas alunas, nas disciplinas de lavores dos diferentes currículos, nomeadamente, no extinto Curso Técnico de Formação Feminina.

As mais recentes animadoras e grandes defensoras da prevenção desta riqueza patrimonial local são, como se disse, a professora Idalina Lameiras, discípula da Dra. Maria Clementina de Moura – a grande investigadora de bordados tradicionais portugueses – e um conjunto de antigas alunas da Escola Bordalo Pinheiro.

O essencial dos motivos e técnicas de produção do Bordado das Caldas tem sido preservado nas últimas décadas, e as recriações mais recentes não se afastam muito da linha da composição tradicional.

Porém, se os processos são idênticos, os materiais utilizados, naturalmente, são diversos.
As novas linhas usadas não permitem, pela sua cor uniforme, a obtenção dos efeitos cromáticos dos conjuntos, que a incerteza do tingimento caseiro proporcionava nos bordados antigos.
Mas, se foi graças à acção meritória da Escola Secundária de Rafael Bordalo Pinheiro que esta bela manifestação de cultura popular se manteve e tem passado de geração em geração, é importante que a sua difusão se alargue – como parece ser uma preocupação actual – pela realização de cursos profissionalizantes, promovidos por entidades competentes.

Pela experiência colhida, pode-se concluir, sem demasiada ousadia, que é possível incrementar a feitura dos Bordados das Caldas da Rainha, mantendo uma produção artesanal, sistemática e organizada, sendo economicamente viável, através de uma instituição que certifique a sua qualidade e autenticidade, coordene e promova a sua divulgação e comercialização.

Esperamos que assim venha a acontecer.


"Mário Tavares"

Última actualização: 09/02/2010
 
   , 03.09.2010
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